The Trends Hub — Ecossistema de cocriação e avaliação em rede, com a pedagogia da contribuição
1.º lugar do Prémio Prática+ 2025. Estudantes de Comunicação Empresarial tornam-se autores, revisores e dinamizadores de seminários, cocriando conhecimento com pares e especialistas externos.
- Luciana OliveiraFCEP - UTPorto
O desafio
Como apoiar estudantes finalistas na construção de uma voz própria e de uma identidade profissional e científica, quando a sua integração em redes profissionais ainda é reduzida e predominam modelos de ensino expositivos?
Numa unidade curricular dedicada a tendências, o conhecimento precisa de acompanhar temas emergentes e a diversidade de perfis de especialização no domínio da Comunicação Empresarial. O The Trends Hub responde a esse desafio com a pedagogia da contribuição: os estudantes contribuem para a aprendizagem dos outros e aprendem a reconhecer o valor dos contributos que recebem.
Trata-se de uma unidade curricular totalmente desprovida de conteúdos programáticos ministrados no formato tradicional. O seu corpo de conhecimento resulta da investigação, da escrita, da revisão e das interações desenvolvidas pelos próprios estudantes, com apoio docente, sendo produzido a jusante das interações pedagógicas.
“A ideia é, precisamente, mover os estudantes da sua zona de conforto para a zona de desafios, de desenvolvimento proximal e de desequilíbrio cognitivo, já que é na superação de desafios, com suporte adequado, que ocorre o verdadeiro crescimento intelectual, profissional e pessoal.”
Objetivos de aprendizagem
No final do percurso pedagógico, espera-se que os estudantes sejam capazes de:
- Investigar e analisar criticamente tendências emergentes da comunicação empresarial, mobilizando conhecimentos e evidências para interpretar fenómenos, avaliar implicações, antecipar desenvolvimentos e formular recomendações fundamentadas.
- Produzir e comunicar conhecimento especializado, desenvolvendo uma voz própria em domínios de interesse individual, através da investigação, reflexão crítica e autoria de conteúdos académicos e profissionais, com autonomia, criatividade e responsabilidade.
- Avaliar criticamente e contribuir para a aprendizagem dos pares, aplicando critérios de qualidade, formulando feedback construtivo, integrando apreciações externas e desenvolvendo competências de autorregulação e melhoria contínua.
- Conceber e dinamizar experiências de aprendizagem colaborativas, em articulação com especialistas e entidades externas, mobilizando competências de planeamento, negociação, liderança colaborativa, comunicação e gestão de projetos.
- Estabelecer e desenvolver relações em redes académicas e profissionais, promovendo a circulação e discussão pública dos seus contributos, colaborando com interlocutores diversificados e consolidando progressivamente a sua identidade profissional e científica.
O que sustenta a prática
O The Trends Hub inspira-se na pedagogia da contribuição (Contributing Student Pedagogy, Hamer et al., 2008, 2012), uma abordagem que valoriza a aprendizagem através dos contributos que os estudantes oferecem uns aos outros. O conhecimento é construído e aperfeiçoado coletivamente, e os estudantes assumem responsabilidades não apenas pela sua aprendizagem, mas também pela dos colegas.
A avaliação é parte deste processo. Ao rever os trabalhos dos pares, os estudantes aprendem a aplicar critérios de qualidade, a identificar fragilidades e a formular recomendações construtivas. Ao receber feedback, confrontam perspetivas, refletem sobre as suas escolhas e melhoram os próprios trabalhos. Esta dinâmica assenta na construção social do conhecimento e na avaliação construtiva, em que aprender e avaliar são atividades interligadas.
O modelo combina ainda desafio e apoio progressivo (scaffolding). Produzir um artigo, avaliar colegas ou trabalhar diretamente com especialistas são experiências exigentes, sobretudo para quem as realiza pela primeira vez. A orientação docente, os instrumentos de apoio e o feedback ajudam os estudantes a enfrentar esses desafios, promovendo uma autonomia que se desenvolve ao longo do percurso.
“O desenho de experiências desafiantes, significativas e impactantes, que assegurem a manutenção da criatividade e expressão individuais, constitui um dos núcleos do papel contemporâneo do professor-moderador e, por isso, equilibramos apoio e desafios para a maximização do desenvolvimento das competências dos estudantes”.
Por fim, a aprendizagem expande-se para além da turma, integrando redes académicas e profissionais, numa aproximação aos princípios do conetivismo. Os especialistas participam na construção e avaliação do conhecimento, enquanto os estudantes encontram interlocutores reais para os seus contributos. A liberdade de escolha, o desenvolvimento de competências e o reconhecimento externo favorecem também a motivação e a construção da identidade profissional e científica.
Como funciona
Duas componentes decorrem em simultâneo: artigos de reflexão crítica ou investigação empírica e seminários temáticos interativos. A docente assume o papel de moderadora e facilitadora, disponibilizando orientação, instrumentos de avaliação e acompanhamento contínuo.
1. Preparar temas e critérios
Antes do semestre, um Conselho Consultivo de docentes e investigadores do CEOS.PP reúne propostas de temas emergentes. Os estudantes podem propor outros temas. As primeiras três aulas, num total de nove horas, apresentam o calendário, a iniciação à investigação, a redação académica e os critérios de revisão por pares.
2. Escolher um tema e mobilizar especialistas
Quatro semanas antes da revisão interna, cada estudante comunica o tema, o título provisório, a tipologia e o objetivo do artigo, assim como os especialistas a contactar. O LinkedIn e o grupo The Trends Hub apoiam a criação de ligações profissionais; a docente disponibiliza uma carta-convite.
3. Escrever para dois públicos
Cada estudante prepara uma versão completa, com cerca de 3500 palavras, e uma versão curta, com cerca de 1400 palavras. O trabalho é acompanhado pela docente, podendo envolver outros docentes e especialistas externos.
4. Rever e melhorar com os pares
As versões anonimizadas são submetidas à atividade Workshop do Moodle. Durante aproximadamente duas semanas, cada estudante revê três artigos de colegas, aplicando uma grelha de 23 parâmetros, com pontuação de 1 a 5 e feedback qualitativo orientado por descritores e questões de apoio.
Mais do que avaliar, o objetivo é contribuir efetivamente para a melhoria dos trabalhos, identificando pontos fortes, fragilidades e recomendações concretas. Segue-se uma semana para os autores analisarem o feedback recebido e aperfeiçoarem os seus artigos. Todos aprendem com as contribuições que oferecem e com aquelas que recebem.
5. Publicar e dialogar em rede
O artigo completo segue para a revista The Trends Hub, no portal PARC/PKP-OJS, e a versão curta é publicada no LinkedIn Pulse. Os especialistas avaliam os artigos em 11 parâmetros e recomendam aceitação, revisão ou rejeição. Os estudantes respondem ao feedback e aperfeiçoam os textos, podendo existir novas rondas de revisão.
Em paralelo, promovem a discussão pública dos seus artigos no LinkedIn, onde os especialistas contribuem com novas perspetivas e conhecimentos, ampliando o debate e a circulação dos contributos. Uma comissão técnica de estudantes de Assessoria e Tradução, integrada no Editing Lab do CEOS.PP, apoia a conformidade formal dos artigos destinados à revista.
6. Cocriar seminários interativos
Em grupos de quatro a cinco elementos, os estudantes concebem uma sessão com, pelo menos, um especialista ou entidade externa, que participa também no desenho da experiência. O formato deve envolver os participantes através de discussão, quizzes, gamificação ou outras dinâmicas.
As equipas asseguram contactos, promoção, acolhimento e certificados; os materiais são partilhados num fórum Moodle. Os temas são comunicados até à terceira semana e podem realizar-se até dois seminários por semana e por turma.
7. Acompanhar o percurso e a autoria
O apoio combina Moodle, PARC/OJS, LinkedIn, Google Workspace e um grupo WhatsApp. A docente acompanha os estudantes nas diferentes etapas, esclarecendo dúvidas, disponibilizando recursos e apoiando a superação das dificuldades, sem retirar aos estudantes a responsabilidade pelas decisões e pelos contributos produzidos.
Avaliação da aprendizagem
Artigos (50% da classificação da unidade curricular)
- 20%: avaliação do artigo pelos pares.
- 20%: desempenho do estudante enquanto revisor.
- 40%: avaliação por especialistas externos.
- 20%: desempenho do artigo no LinkedIn.
A avaliação reconhece tanto a qualidade do conhecimento produzido como a contribuição para a melhoria dos trabalhos dos colegas. A docente acompanha e orienta o processo, sem atribuição direta de classificação nesta componente.
Seminários (50% da classificação da unidade curricular)
- 32%: heteroavaliação dos seminários.
- 48%: avaliação docente.
- 20%: assiduidade.
A avaliação dos seminários utiliza 14 parâmetros, combinando classificações quantitativas e feedback qualitativo. A docente disponibiliza um relatório de síntese com os resultados e as apreciações recebidas.
Resultados e aprendizagens
A avaliação da experiência combina indicadores de desempenho académico, participação em redes, qualidade das revisões, autoria académica e feedback dos estudantes e especialistas. Os resultados apresentados referem-se à edição de 2024 e às quatro primeiras edições da revista, entre 2021 e 2024.
Aprendizagem e participação
- 77 estudantes inscritos na avaliação em período letivo, com 100% de aprovação no grupo reportado.
- Classificações médias de 16,92/20 nos artigos, 16,76/20 nos seminários e 17,17/20 na avaliação global.
- Avaliação institucional de 3,7/4 para a unidade curricular e 3,8/4 para a docente.
- Apreciações positivas sobre qualidade e confiança no peer review (3,70/5), autoconfiança e qualidade percebida como revisor (4,35/5) e confiança, atitudes e integridade na autoria académica (3,77/5).
Os estudantes valorizam a autoria, a oportunidade de melhorar os trabalhos dos colegas, o feedback externo e a visibilidade para além da sala de aula. Também identificam exigência de tempo e esforço cognitivo, complexidade dos critérios, ansiedade ao atribuir notas aos pares e dúvidas sobre a autoridade ou a autenticidade de algumas revisões.
Rede académica e profissional
- 311 artigos publicados no PARC e no LinkedIn nas quatro primeiras edições, com 4592 acessos à revista, incluindo mais de 1200 associados à edição de 2024.
- 491 especialistas envolvidos ao longo dessas edições; em 2024, 175 especialistas realizaram 344 avaliações.
- Conselho Consultivo composto por 29 docentes e investigadores.
- 10 115 interações no LinkedIn em 2024: 5025 reações, 4920 comentários e 170 partilhas.
- 135 citações dos artigos identificadas no Google Scholar.
O feedback dos especialistas destaca a preparação dos estudantes, a discussão pública de temas relevantes e o valor da aproximação entre academia e profissões.
Aprendizagens para a continuidade
A autonomia exige apoio próximo e critérios explícitos. A revisão por pares precisa de preparação, treino e mediação quando surgem desacordos. A experiência evidencia também a importância de preparar os estudantes para a exposição pública e para a responsabilidade de produzir e avaliar conhecimento destinado a outros.
“É maravilhoso vê-los desabrochar! E é extremamente gratificante vê-los ampliados pela marca que deixam na escola e na rede.”
Como adaptar
A prática pode ser adaptada a diferentes unidades curriculares e áreas de formação, integrando os seus princípios em atividades já existentes. A adaptação pode começar por um trabalho, um projeto ou uma apresentação, ajustando a sua complexidade aos objetivos de aprendizagem, ao perfil dos estudantes e aos recursos disponíveis. O princípio orientador é criar oportunidades para que cada estudante contribua para a aprendizagem dos outros, através da produção, discussão e avaliação de trabalhos com valor para o coletivo.
Para concretizar esta adaptação, podem considerar-se as seguintes possibilidades:
- Definir destinatários para além do docente. Conceber trabalhos que possam ser úteis aos colegas, a outras turmas ou à comunidade académica e profissional, dando aos estudantes um propósito concreto para a produção e partilha de conhecimento.
- Transformar apresentações em espaços de discussão. Organizar fóruns estruturados em que os estudantes apresentem ideias, coloquem questões e discutam os contributos dos colegas, envolvendo toda a turma na construção da aprendizagem.
- Introduzir momentos intermédios de partilha e revisão. Prever a apresentação de versões preliminares dos trabalhos, acompanhada de feedback estruturado, para permitir a identificação de dificuldades e a melhoria dos resultados antes da entrega final.
- Integrar a avaliação entre pares. Disponibilizar critérios claros e formulários orientadores que apoiem uma apreciação fundamentada e construtiva. Quando adequado e viável, envolver especialistas externos, ajustando a participação dos diferentes intervenientes às características da unidade curricular.
- Dar visibilidade aos trabalhos produzidos. Promover a sua circulação em contextos públicos ou semipúblicos, como exposições, eventos, plataformas digitais ou espaços de partilha entre turmas, escolhendo o alcance mais adequado ao contexto.
O docente assume um papel de orientador e facilitador, disponibilizando etapas, procedimentos e recursos de apoio e reduzindo gradualmente esse suporte à medida que os estudantes ganham autonomia. Esta adaptação procura favorecer o envolvimento da turma, a compreensão dos critérios de qualidade, a autorregulação e a responsabilidade pela aprendizagem individual e coletiva.
Recursos e materiais
A revista e a rede The Trends Hub permitem explorar os resultados públicos da atividade de autoria e colaboração.