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JIIP'26 | Fernando Remião: ensinar o prazer de aprender num tempo de inteligência artificial

A partir da sua própria experiência como estudante de piano, Fernando Remião trouxe às JIIP'26 uma reflexão sobre prazer, esforço, exigência e sobre aquilo que deve continuar profundamente humano na aprendizagem, mesmo perante a expansão da inteligência artificial.

Jiip 26 Fernando Remiao

Nem todas as reflexões sobre inovação pedagógica começam com uma tecnologia, uma metodologia ou um modelo educativo. A intervenção de Fernando Remião, Vice-Reitor da Universidade do Porto, nas Jornadas Internas de Inovação Pedagógica 2026 começou com um piano e com uma experiência pessoal que lhe permitiu colocar uma pergunta muito simples no centro do debate: como conseguimos fazer com que os estudantes tenham prazer em aprender?

A memória dos anos em que estudou piano serviu de ponto de partida para uma reflexão em que aprendizagem, esforço, exigência e relação humana se foram cruzando com um dos temas que hoje mais desafia as instituições de ensino superior, a inteligência artificial. Fernando Remião recordou o prazer que encontrava na música e na aprendizagem e recuperou essa experiência para lembrar que ensinar também passa por conseguir despertar nos estudantes a vontade de se aproximarem do conhecimento, de experimentar e de continuar quando aquilo que estão a aprender ainda é difícil.

Esta ideia adquire uma importância particular num momento em que os estudantes têm acesso quase imediato a ferramentas capazes de responder, resumir, produzir textos ou resolver problemas. A inteligência artificial está presente no quotidiano e continuará a integrar as práticas académicas; tentar ignorá-la ou afastá-la dificilmente constitui uma resposta sustentável. Para Fernando Remião, importa antes compreender como pode ser incorporada sem perder aquilo que dá profundidade à experiência educativa.

Aprender não acontece apenas no acesso rápido a uma resposta. Acontece também quando alguém se demora numa dificuldade, conversa com outras pessoas, experimenta uma solução, falha, regressa ao problema e descobre gradualmente aquilo que ainda não conseguia fazer. É nesse espaço de relação, esforço e descoberta que a educação conserva uma dimensão profundamente humana, mesmo quando as ferramentas disponíveis se tornam cada vez mais sofisticadas.

Foi também neste sentido que Fernando Remião chamou a atenção para uma recomendação particularmente relevante no debate internacional sobre inteligência artificial e educação: o processo de ensino e aprendizagem deve continuar sob controlo humano. A tecnologia pode apoiar, ampliar possibilidades e tornar determinadas tarefas mais acessíveis, mas as decisões sobre aquilo que se aprende, por que razão se aprende e que papel esse processo desempenha na formação de cada estudante continuam a exigir responsabilidade humana.

A experiência do piano permitiu-lhe acrescentar uma dimensão que por vezes desaparece quando se fala de motivação. Ter prazer em aprender não significa que aprender seja sempre fácil. Pelo contrário, algumas das experiências formativas que mais permanecem são precisamente aquelas que exigiram tempo, persistência e capacidade para ultrapassar dificuldades. Fernando Remião recordou o seu exame final de piano como um dos momentos mais exigentes do seu percurso, marcado pelas horas de estudo e pelo esforço necessário para alcançar um objetivo que não lhe surgia naturalmente.

É a partir dessa recordação que a sua intervenção ganha uma dimensão particularmente interessante para pensar o ensino superior atual. O valor de uma aprendizagem nem sempre está apenas no conteúdo que se domina no final; pode estar também nas capacidades desenvolvidas durante o percurso, na disciplina que se construiu, na persistência que foi necessária e na confiança adquirida quando aquilo que inicialmente parecia difícil se torna possível. No seu próprio caso, Fernando Remião reconheceu nessas aprendizagens competências que acabariam por acompanhar a forma como mais tarde se tornou professor.

A presença crescente da inteligência artificial torna esta questão ainda mais desafiante, porque obriga a distinguir aquilo que pode ser facilitado pela tecnologia daquilo que continua a ser importante que cada estudante experimente e construa. Se uma ferramenta consegue produzir uma resposta em segundos, a pergunta pedagógica passa a ser outra: que percurso queremos que o estudante faça para que essa resposta se transforme em aprendizagem? E que competências deixariam de ser desenvolvidas se eliminássemos todas as dificuldades que fazem parte desse percurso?

É neste equilíbrio entre possibilidade e exigência que a inovação pedagógica encontra hoje uma das suas tarefas mais complexas. As ferramentas podem mudar, e mudarão certamente, mas a educação continua a envolver pessoas que aprendem com outras pessoas, que precisam de encontrar sentido no que fazem e que desenvolvem capacidades precisamente porque são desafiadas a ir além daquilo que já conseguem fazer.

A intervenção de Fernando Remião trouxe, assim, para o centro das JIIP’26 uma dimensão que corre o risco de desaparecer quando a discussão se concentra exclusivamente nas capacidades da tecnologia. Antes de perguntarmos tudo aquilo que a inteligência artificial consegue fazer, vale a pena perguntar que experiências queremos continuar a proporcionar aos estudantes, que relações queremos preservar e que tipo de aprendizagem merece continuar a exigir tempo, atenção e envolvimento pessoal.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais a imagem do piano permanece tão adequada. Aprender uma peça exige repetição, dificuldade, atenção e, muitas vezes, alguma frustração, mas é também precisamente desse caminho que pode nascer o prazer de finalmente conseguir fazer aquilo que antes parecia distante. Num tempo de inteligência artificial, ensinar poderá continuar a significar, em grande medida, ajudar alguém a descobrir esse prazer de aprender.

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