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JIIP'26 | Joaquim Mourato: dar à dimensão pedagógica a mesma importância da dimensão científica

Nas JIIP'26, Joaquim Mourato refletiu sobre o lugar que a inovação pedagógica conquistou no ensino superior e sobre o desafio que agora se coloca às instituições: transformar o investimento realizado em capacidade sustentável de continuar a inovar.

Jiip 26 Joaquim Mourato

Há mudanças que se tornam mais visíveis quando olhamos para o lugar que determinados temas passaram a ocupar nas instituições. Para Joaquim Mourato, Presidente do Conselho Diretivo do Instituto para a Educação Superior, o facto de a inovação pedagógica ter hoje espaço próprio na agenda do ensino superior português representa já uma transformação relevante, sobretudo quando comparada com um período em que a dimensão pedagógica permanecia claramente subordinada a outras componentes da atividade académica.

Na intervenção que realizou na sessão de abertura das Jornadas Internas de Inovação Pedagógica 2026, Joaquim Mourato começou precisamente por reconhecer o caminho percorrido. Durante muito tempo, lembrou, a pedagogia esteve longe de ocupar uma posição central na forma como as instituições pensavam o seu desenvolvimento ou como os próprios docentes construíam as suas carreiras. A investigação científica beneficiou de décadas de investimento, reconhecimento e criação de estruturas capazes de a apoiar e valorizar, enquanto a qualidade do ensino começou mais recentemente a conquistar um lugar semelhante na reflexão estratégica das instituições.

Foi neste contexto que recuperou uma expressão das orientações europeias que considera particularmente significativa: a necessidade de atribuir "igual estima" à dimensão pedagógica e à dimensão científica. Não se trata de diminuir a importância da investigação, mas de reconhecer que uma instituição de ensino superior cumpre plenamente a sua missão quando a qualidade da produção científica e a qualidade das experiências de aprendizagem que proporciona aos estudantes recebem atenção, exigência e reconhecimento comparáveis.

Essa mudança de perspetiva tem vindo também a alterar a forma como a inovação pedagógica é organizada. Joaquim Mourato destacou o valor de uma abordagem sistémica, construída em colaboração entre instituições, como um dos contributos mais relevantes dos últimos anos. O trabalho realizado em consórcio permitiu colocar em relação instituições com experiências diferentes, favorecer a circulação de práticas e conhecimento e, sobretudo, criar condições para que aquelas que partiram de pontos distintos pudessem avançar em conjunto.

A riqueza deste modelo está precisamente aí. Quando a inovação depende apenas da iniciativa de alguns docentes ou de determinadas unidades, os avanços tendem a permanecer localizados. Quando se criam redes, estruturas e oportunidades de colaboração, aquilo que uma instituição aprende pode tornar-se recurso para outras, e aquilo que resulta num determinado contexto pode gerar novas perguntas, adaptações ou experiências noutros lugares. Joaquim Mourato associou esta capacidade de trabalhar em conjunto à robustez do próprio sistema de ensino superior e à possibilidade de assegurar que a inovação não deixa ninguém para trás.

No centro desse movimento permanecem os estudantes. Inclusão, integração, sucesso académico, bem-estar e combate ao abandono surgiram na sua intervenção como dimensões para as quais a transformação pedagógica deve contribuir, lembrando que a inovação só ganha verdadeiro sentido quando melhora as condições em que as pessoas aprendem e participam na vida académica.

A inteligência artificial tornou esta discussão ainda mais urgente. Para Joaquim Mourato, a tecnologia já entrou nas instituições e a resposta dificilmente poderá passar por tentar impedir a sua presença. O desafio consiste antes em aprender a trabalhar com ela de forma crítica, preservando e, idealmente, reforçando o rigor académico. Essa presença obriga também a reconsiderar modelos de avaliação muito centrados no produto final e a atribuir maior importância ao processo, ao pensamento crítico, à criatividade e àquilo que cada estudante demonstra conseguir construir ao longo do seu percurso.

Mas talvez uma das questões mais relevantes da intervenção tenha surgido quando Joaquim Mourato projetou a reflexão para além do momento atual. Uma parte importante da aceleração que a inovação pedagógica conheceu nos últimos anos foi possível graças ao financiamento extraordinário associado ao PRR e aos projetos que permitiram criar equipas, desenvolver recursos, testar soluções e estabelecer novas redes de colaboração. Esse ciclo aproxima-se do fim e, com ele, surge uma pergunta inevitável: como preservar aquilo que foi construído quando os recursos disponíveis forem substancialmente menores?

A resposta proposta foi clara no seu princípio, ainda que exigente na concretização. É necessário começar a pensar desde já a inovação pedagógica para além do PRR, não procurando reproduzir indefinidamente uma escala de atividade que dependeu de condições excecionais, mas identificando aquilo que importa consolidar, as capacidades que devem permanecer e as formas de cooperação que poderão sustentar o caminho iniciado. As equipas foram criadas, as instituições aprenderam a trabalhar de novas formas e muitas das dinâmicas passaram a fazer parte da vida académica; o desafio seguinte consiste em transformar esse investimento num património institucional capaz de perdurar.

Esta visão de continuidade ajuda também a compreender o sentido mais amplo da defesa de uma igual valorização das dimensões científica e pedagógica. Se a pedagogia passa a ser reconhecida como componente estrutural da missão académica, a sua existência não pode ficar dependente exclusivamente da duração de projetos ou de ciclos específicos de financiamento. Precisa de se traduzir em capacidade instalada, em redes que continuam a funcionar, em conhecimento que circula e numa cultura institucional que mantém a aprendizagem dos estudantes como preocupação permanente.

Foi esse o horizonte deixado por Joaquim Mourato nas JIIP'26: o caminho feito nos últimos anos merece ser consolidado, não pela simples preservação de tudo aquilo que foi criado, mas pela capacidade de transformar projetos, experiências e investimento em estruturas e práticas sustentáveis que continuem a fazer avançar a qualidade do ensino superior.

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