Num tempo em que as transformações económicas, sociais e tecnológicas se sucedem a um ritmo particularmente intenso, pensar a inovação pedagógica significa também interrogar aquilo que se espera hoje do ensino superior e a forma como as instituições preparam os estudantes para contextos profissionais e sociais em permanente mudança. Foi a partir deste enquadramento que Paulo Pereira, Reitor da Universidade Técnica do Porto, abriu a sua intervenção nas Jornadas Internas de Inovação Pedagógica 2026, colocando a qualificação das pessoas e o desenvolvimento de competências no centro da reflexão.
Para Paulo Pereira, as instituições de ensino superior desempenham um papel decisivo num modelo de desenvolvimento cada vez mais dependente do conhecimento, da tecnologia e da inovação e, por isso, a sua responsabilidade não se esgota na transmissão de um património científico já consolidado. A oferta formativa precisa de acompanhar as necessidades presentes e futuras da sociedade, os métodos pedagógicos têm de evoluir e o ensino deve criar condições para que os estudantes desenvolvam competências que lhes permitam compreender, agir e continuar a aprender em contextos que serão necessariamente diferentes daqueles que hoje conhecemos.
É neste ponto que a centralidade do estudante ganha um significado mais profundo. Mais do que uma expressão recorrente no discurso educativo, pressupõe reconhecer que aprender envolve participação, autonomia e construção ativa do conhecimento. Paulo Pereira recordou a evolução de modelos em que a atenção recaía sobretudo sobre o comportamento do professor para perspetivas que procuram compreender aquilo que acontece do lado de quem aprende, reconhecendo o papel dos processos cognitivos, da participação e da autonomia dos estudantes naquilo que conseguem efetivamente construir a partir da experiência educativa.
Esta mudança torna-se particularmente importante quando se olha para a diversidade crescente de quem chega ao ensino superior. Os estudantes trazem percursos, condições, expectativas e necessidades distintas e essa heterogeneidade coloca às instituições desafios que atravessam simultaneamente a aprendizagem, o sucesso académico, a inclusão e a prevenção do abandono. Se os públicos mudaram, também as formas de ensinar têm de ser capazes de se transformar, procurando respostas que permitam envolver estudantes diferentes e criar oportunidades efetivas para que todos possam progredir.
A reflexão de Paulo Pereira estendeu-se também à própria formação pedagógica dos docentes. Uma parte importante daquilo que cada professor inicialmente entende como uma boa aula é construída muito antes de começar a ensinar, através dos anos passados enquanto estudante, dos professores que encontrou e das práticas que aprendeu a reconhecer como familiares. Essa socialização cria imagens, crenças e expectativas sobre aquilo que significa ensinar bem, mas a experiência acumulada não dispensa uma reflexão pedagógica capaz de questionar esses modelos e de os colocar em diálogo com aquilo que hoje sabemos sobre aprendizagem.
Inovar significa, neste sentido, criar condições para que os professores possam também continuar a aprender, confrontando as suas práticas com novas perspetivas e encontrando formas de responder a estudantes e contextos diferentes. É precisamente por isso que a inovação pedagógica ultrapassa a adoção pontual de uma ferramenta, de uma metodologia ou de uma tecnologia e passa a depender da capacidade das instituições para construir uma cultura em que ensinar seja objeto de reflexão, experimentação e desenvolvimento continuado.
A rápida evolução tecnológica acrescenta uma nova camada a este desafio. As tecnologias fazem parte da vida quotidiana dos estudantes e dos docentes e irão continuar a transformar os modos como se acede à informação, se comunica e se produz conhecimento. A questão que se coloca ao ensino superior é, por isso, menos a de saber se essas tecnologias estarão presentes e mais a de compreender como podem ser integradas de forma pedagogicamente consequente, preservando aquilo que importa no processo de aprendizagem e colocando-as ao serviço do desenvolvimento dos estudantes.
Foi neste enquadramento que Paulo Pereira situou a importância de uma cultura organizacional de inovação pedagógica, capaz de apoiar os docentes na revisão das suas práticas e de fazer da qualidade do ensino uma responsabilidade institucional partilhada. É também nesse espaço que estruturas como o Centro de Inovação Pedagógica encontram a sua razão de ser, aproximando pessoas, criando oportunidades de formação e reflexão e ajudando a transformar preocupações dispersas em processos continuados de melhoria.
Ao abrir as JIIP’26, Paulo Pereira deixou, assim, uma ideia que atravessaria muitos dos debates das Jornadas: o futuro do ensino superior depende tanto daquilo que sabemos como da capacidade que temos para criar experiências em que os estudantes possam mobilizar esse conhecimento, desenvolver competências e assumir um papel cada vez mais ativo na sua própria aprendizagem.