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JIIP'26 | Rui Penha: ensinar é também criar relações que transformam professores e estudantes

Na conferência plenária das JIIP'26, Rui Penha partiu da pesquisa artística para pensar diferentes formas de conhecimento, a relação pedagógica e a escola como um "teatro de aspiração", onde podemos descobrir aquilo que ainda não conhecemos suficientemente para desejar.

Jiip26 Rui Penha

Que tipo de conhecimento produz a arte e por que razão continua a ser tão difícil reconhecê-lo quando procuramos avaliá-lo com categorias construídas sobretudo para outras formas de investigação? Foi a partir desta questão que Rui Penha, docente da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, desenvolveu a conferência plenária das Jornadas Internas de Inovação Pedagógica 2026, numa reflexão que começou na pesquisa artística e acabou por tocar em algo muito mais amplo: a maneira como aprendemos, ensinamos e nos transformamos na relação com outras pessoas e com o mundo.

A pesquisa artística ocupa, como Rui Penha mostrou, um território particularmente desafiante. É relativamente fácil reconhecer como investigação o estudo sobre uma obra, um compositor ou uma prática artística, da mesma forma que se reconhece o desenvolvimento de novas tecnologias destinadas à criação. Mais difícil tem sido aceitar que a própria criação artística possa constituir uma forma de produzir conhecimento, sobretudo quando esse conhecimento não se deixa converter integralmente em proposições, conceitos ou explicações escritas.

Grande parte da tradição académica habituou-nos a reconhecer como conhecimento aquilo que conseguimos afirmar, demonstrar e transmitir discursivamente. Sabemos, contudo, pela experiência quotidiana, que nem tudo aquilo que conhecemos existe dessa forma. Saber explicar aquilo que um pianista faz não nos torna capazes de tocar como ele; conhecer todas as instruções de uma determinada técnica não substitui os anos de relação com os materiais, com o corpo e com a prática que permitem dominá-la. Há conhecimento que se constrói fazendo, experimentando e relacionando-se e que permanece parcialmente inacessível a quem apenas observa o resultado final.

Foi deste problema que Rui Penha partiu para propor a pesquisa artística como criação e disseminação de conhecimento relacional. A expressão parece inicialmente abstrata, mas torna-se bastante concreta quando pensamos na forma como uma obra de arte pode alterar aquilo que conseguimos ver, sentir ou compreender. Uma obra não precisa de nos explicar uma relação para a tornar possível; pode inaugurar uma forma nova de nos relacionarmos com uma experiência, com um objeto, com uma memória ou até com uma parte de nós próprios que anteriormente não conseguíamos reconhecer.

É precisamente neste ponto que a reflexão sobre a criação artística se encontra com a educação. Quando um professor entra numa sala de aula, leva consigo muito mais do que um conjunto de conteúdos. Leva as referências que acumulou, as obras que conhece, as pessoas com quem aprendeu, os valores que construiu e uma determinada forma de estabelecer relações com o conhecimento. O estudante chega com a sua própria rede, formada por outras experiências, outras referências e outras maneiras de olhar para o mundo.

Ensinar acontece no encontro entre essas duas redes.

Para Rui Penha, essa relação só se torna verdadeiramente educativa quando admite transformação nos dois sentidos. O professor procura naturalmente alargar o universo do estudante e colocar-lhe diante dos olhos aquilo que ele ainda não conhece, mas precisa igualmente de estar disponível para ser afetado por aquilo que o estudante traz. As referências dos estudantes, as perguntas que formulam e as formas como se relacionam com os materiais podem também deslocar o professor e obrigá-lo a olhar de maneira diferente para aquilo que julgava conhecer.

Esta abertura ajuda a compreender outra das ideias mais sugestivas da conferência: a escola como um "teatro de aspiração". Há coisas cujo valor não conseguimos conhecer antes de nos aproximarmos delas. Um estudante pode encontrar um professor profundamente envolvido com uma obra, uma área ou uma prática que ainda lhe diz pouco e, mesmo sem compreender inteiramente essa relação, perceber que existe ali alguma coisa que merece ser descoberta. A educação pode proporcionar precisamente esse encontro, criando oportunidades para que alguém se exponha a mundos que ainda não conhece suficientemente para desejar.

A aspiração nasce, neste sentido, antes da certeza. Entramos num percurso sem saber exatamente aquilo em que ele nos transformará e só mais tarde conseguimos compreender por que razão determinada experiência, determinada pessoa ou determinada escolha se tornou importante. Rui Penha relacionou esta ideia com o próprio processo de criação artística, que raramente começa com conhecimento integral daquilo que será encontrado no final. O artista entra em relação com os materiais, transforma-os e é também transformado por eles, descobrindo retrospectivamente o sentido daquilo que produziu.

É por isso que a academia pode constituir um espaço particularmente importante para a criação e para a aprendizagem. Fora dela, um artista pode estar condicionado pelo público, pelo mercado ou pela necessidade de proteger a sua carreira, circunstâncias que tornam compreensível a escolha de soluções já testadas. No contexto académico, existe a possibilidade de criar um espaço mais protegido para experimentar, arriscar, falhar e abandonar caminhos que não conduzem onde se esperava, sem exigir que cada tentativa produza imediatamente um resultado seguro ou reconhecível.

Essa liberdade contém também uma responsabilidade pedagógica. Se ensinar significa transmitir apenas aquilo que já sabemos, cada geração poderá, no máximo, reproduzir a anterior. Rui Penha lembrou que o estudante não deve aspirar simplesmente a tornar-se uma réplica competente do professor; precisa de poder avançar para além dele, integrar outras referências e acrescentar alguma coisa à tradição que recebeu. É nesse movimento que o ensino deixa de funcionar como reprodução e se transforma numa forma de continuidade viva.

No final da conferência, a relação entre arte e ciência apareceu menos como uma oposição do que como uma possibilidade de complementaridade. A ciência dispõe de instrumentos extraordinariamente poderosos para focar, distinguir e compreender dimensões específicas da realidade. A arte permite frequentemente fazer o movimento contrário, reunindo aquilo que parecia separado, preservando ambiguidades e convocando simultaneamente diferentes dimensões da experiência humana.

Talvez seja precisamente essa ideia que torne a intervenção de Rui Penha tão pertinente para pensar a educação para além do ensino artístico. Aprender é também adquirir novas formas de relação com o mundo, e ensinar é criar condições para que essas relações possam acontecer. Quando isso acontece, a transformação dificilmente pertence apenas ao estudante, porque a relação pedagógica modifica também quem ensina e aquilo que ambos passam a conseguir ver.

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